Uma abelha que não visita flores
A maioria das abelhas sem ferrão coleta néctar e pólen nas flores. As abelhas do gênero Lestrimelitta seguem outra estratégia: obtêm alimento exclusivamente saqueando outras colônias, levando mel, pólen, cerume e principalmente alimento larval. Esse comportamento, chamado de cleptoparasitismo ou cleptobiose, aparece como estratégia exclusiva em apenas dois gêneros de abelhas sem ferrão no mundo: Lestrimelitta, nas Américas, e Cleptotrigona, na África.
O Brasil tem 14 espécies de Lestrimelitta, e a mais conhecida é a Lestrimelitta limao, registrada na Bahia, no Ceará, no Distrito Federal, em Goiás, no Maranhão, em Minas Gerais, em Rondônia e em São Paulo. Ela recebe muitos nomes regionais, como iratim, iraxim, arancim, aratim, canudo, sete-portas e limão-canudo.

Registro de abelha-limão publicado no iNaturalist por Bruno Henrique Aranda.
O ninho da abelha-limão costuma ter um tubo de entrada longo, que pode chegar a 35 cm, e é construído com material roubado de outros ninhos.
Como o ataque acontece
Durante os ataques, as operárias de abelha-limão liberam citral, um composto volátil produzido nas glândulas mandibulares, com cheiro de limão. O citral desorganiza a comunicação química da colônia atacada, e a defesa se desfaz. Pesquisas indicam que as espécies capazes de manter a organização sob o efeito do citral dificilmente são atacadas.
Um estudo no campus da USP de Ribeirão Preto acompanhou ataques a colmeias racionais de jataí e marmelada e a ninhos em cavidades naturais. O ataque começa com a construção de uma lâmina de cerume na entrada, liberação de feromônios e comportamento agressivo que impede o pouso e a entrada das abelhas da colônia atacada. As operárias invasoras permanecem dentro da lâmina à noite, e novas operárias chegam pela manhã para continuar o saque, que pode durar dias.
Como reconhecer um ataque
Os sinais mais comuns são o cheiro de limão perto da caixa, uma nuvem de abelhas escuras e brilhantes em volta da entrada, operárias da colônia atacada impedidas de entrar, e uma lâmina de cerume nova construída na entrada. Durante o saque, as abelhas-limão também defendem o ninho conquistado contra outros saqueadores.
Como proteger o meliponário
A proteção mais eficaz é manter colônias fortes. Colônias populosas, com boa reserva de alimento, resistem melhor e se recuperam depois de um ataque. As medidas práticas incluem vedar todas as frestas da caixa com fita crepe, manter a entrada estreita, evitar deixar mel exposto ou alimentadores coletivos que atraiam saqueadoras, e não instalar o meliponário perto de ninhos conhecidos de abelha-limão, recomendação que a Embrapa estende a outras espécies saqueadoras.
Espécies pequenas e colônias recém-divididas são as mais vulneráveis. Mirins, jataí e marmelada aparecem com frequência entre as colônias atacadas. A uruçu-amarela foi estudada quanto à reação ao citral.
Por que não exterminar
Técnicos e pesquisadores recomendam não eliminar a abelha-limão. Em relato ao Sebrae, o gerente de apicultura e meliponicultura da Epagri estimou que as perdas nos ataques ficam em torno de 10% das colmeias e argumentou que, na natureza, a eliminação de famílias fracas funciona como seleção natural. Um estudo da USP também concluiu que, embora muitos ninhos sejam atacados, poucos são destruídos, o que indica que a densidade de ninhos de abelha-limão está em equilíbrio com a de outras abelhas.
Na Amazônia, o cenário é mais severo para Apis mellifera: em uma criação em Presidente Figueiredo (AM), 120 colmeias de Apis foram comprometidas por Lestrimelitta em dez anos. Nas abelhas nativas, os pesquisadores relatam que o desfecho mais comum é diferente, e que algumas espécies amazônicas chegam a defender o meliponário contra saques.
Referências
- Santana, W. C. et al. (2004). Abelha Iratim (Lestrimelitta limao) realmente é danosa às populações de abelhas? Mensagem Doce, 78.
- Rech, A. R. et al. (2013). Abelhas-sem-ferrão amazônicas defendem meliponários contra saques de outras abelhas. Acta Amazonica, 43(3).
- USP. Bionomic and eco-chemical determinants of cleptoparasitic behaviour of Lestrimelitta limao. Dissertação de mestrado.
- Olhar Direto / Sebrae. Lestrimelitta limão, a praga que ajuda a regular a população nativa de abelhas.
- Wikipedia. Lestrimelitta limao.
- Embrapa Meio-Norte. Criação de abelhas-sem-ferrão.
Dúvidas frequentes
Por que se chama abelha-limão?
Porque as operárias liberam citral durante os ataques, um composto com cheiro característico de limão.
A abelha-limão mata a colônia atacada?
Nem sempre. Um estudo no campus da USP de Ribeirão Preto registrou vários ataques e poucas colônias dizimadas. Colônias fracas que não se recuperam e são atacadas de novo podem se extinguir.
Devo destruir o ninho de abelha-limão?
Técnicos e pesquisadores recomendam não exterminar a espécie, que faz parte do equilíbrio natural e elimina colônias fracas. O foco deve ser proteger o meliponário com colônias fortes e bem vedadas.
Quais outros nomes a abelha-limão recebe?
Iratim, iraxim, arancim, aratim, canudo, sete-portas e limão-canudo, entre outros nomes regionais.
Créditos das imagens
- Bruno Henrique Aranda · CC BY
Organize o meliponário no Beeya
Colônias, manejos, iscas e produção num lugar só, funcionando sem sinal no campo.
Android · grátis pra começar · 10 colônias no plano Isca